Biblioteca · 1563–1565

De Beata Virgine Dei Matre Maria

O Poema à Virgem — composto na areia da praia de Iperoig durante o cativeiro entre os Tamoios.

O poema escrito na areia

Em janeiro de 1563, o Pe. José de Anchieta partiu com o Pe. Manuel da Nóbrega para a aldeia de Iperoig (atual Ubatuba, SP) a fim de negociar a paz com os índios Tamoios, que se haviam aliado aos franceses contra os portugueses.

Como garantia da palavra jesuítica, Anchieta permaneceu por cerca de cinco meses como refém entre os Tamoios, correndo risco de morte a cada dia. Foi nesse cativeiro que ele fez à Virgem Maria uma promessa: se saísse com vida, compor-lhe-ia um poema em latim clássico em louvor à sua maternidade divina.

Sem papel nem tinta, escreveu os versos na areia da praia com um graveto e os memorizou integralmente — feito que testemunhas contemporâneas atestaram como maravilhoso. Só depois de libertado é que os transcreveu.

O resultado é um dos mais extensos poemas marianos da história: cerca de 5.800 versos hexâmetros em latim clássico, distribuídos em vários livros que percorrem os principais mistérios da vida da Virgem Maria — desde a sua concepção imaculada até a assunção aos céus.

Abertura do poema

Livro I · invocação à Virgem

Latim original

Alma parens summi Genitoris, Virgo perennis,

Cui rutilat sertum stellis diadema coruscis,

Cui pedibus lunae fulgentia cornua parent,

Quam sol ambit amans, radiisque coruscat honorae

Vestis, et augustum diffundit lumen in orbem:

Aspice nos placido, mater piissima, vultu,

Utque tuas humili possim canere ore loquelas,

Adspira, atque preces clemens exaudi precantis.

Tradução para o português

Alma Mãe do sumo Criador, Virgem sem fim,

Cuja coroa refulge em círculo de estrelas cintilantes,

A cujos pés obedecem os cornos brilhantes da lua,

A quem o sol, amando, cerca, e cujas vestes reluzem

com raios de honra, difundindo augusta luz pelo mundo:

Olha-nos, ó Mãe piedosa, com semblante sereno,

e inspira-me para que eu possa cantar, com humilde boca,

as tuas grandezas — e ouve, clemente, as preces de quem te suplica.

Excerto da invocação inicial. A obra completa contém cerca de 5.800 versos.

Estrutura da obra
  • Livro I

    Invocação à Virgem, elogios à sua maternidade divina e aos mistérios do Rosário.

  • Livros II–III

    Concepção imaculada, nascimento, apresentação no templo e desposórios com São José.

  • Livros IV–V

    Anunciação, visitação, natividade do Senhor e mistérios da infância de Jesus.

  • Livros VI–VIII

    A Paixão, morte e ressurreição de Cristo contempladas do coração da Mãe.

  • Livros IX–X

    Pentecostes, vida da Virgem após a Ascensão, dormição e assunção gloriosa.

Edições e referências

A edição crítica de referência em português é: Poema da bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Deus, em dois tomos, com originais latinos acompanhados de tradução em verso alexandrino, introdução e anotações pelo Pe. Armando Cardoso, SJ — publicada pelas Edições Loyola na coleção Obras Completas de José de Anchieta, volumes 3 e 4.

Para aprofundamento acadêmico, ver também José de Anchieta. Primer Mariológico español — Texto latino de sus poemas mariológicos, de José María Fornell (Editorial Sinderesis, 1997).

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